|
"Sever, tem como nome anterior “Cever”, que data do seu antepassado enquanto cidade e concelho, possuindo nessa época uma Prisão e três conventos, o da Senhora das Seixas, o convento de recolhimento de freiras de Santa Clara que ficou topónimo “Dasclaras” e a Capela de Santa Margarida, no sitio da Desganaia, onde hoje é fácil encontrar-se restos de cerâmica e ruínas. Das tradições de Sever consta também que a actual vila de Alvite nasceu de dois casais de Sever que lá se fixaram; isto explicaria o facto não muito longínquo de os mortos de Alvite virem a ser sepultados em Sever". O CONCELHO DE SEVER Terra muito antiga, mas apagada nas páginas da História. O Pe. Joaquim de Azevedo não a inclui na sua História do Bispado de Lamego, talvez porque no seu tempo, fins de século XVIII, Sever fizesse parte do convento de S. João de Tarouca e não do Bispado. A grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista “Cever” mas apenas nos diz que o seu prior era apresentado pelo abade de S. João de Tarouca, e que pertenceu ao concelho de Leomil. A Enciclopédia Verbo vai um pouco mais longe e informa que foi um concelho extinto em 1801, data que supomos errada. A. Almeida Fernandes no livro As Origens das Igrejas da Diocese Lamecense é, felizmente, muito mais rico de informação e fale-nos de Sever já no séc. XII. Em 1163 não aparece ainda entre granjas do Convento de S. João; em 1258 surge incluída no couto desse Convento; foi por isso entre 1163 e 1258 que Sever passou ao domínio dos Monges de Clister. Todavia é terra anterior a essa data, anterior à nacionalidade. Talvez que um cavaleiro vindo do vizinho castro de S. Félix, hoje S. Fins, tenha conquistado estas terras e ali criou a sua quinta ou “villa”; um presor chamado “Severus “ estabeleceu ali a vila rústica, ou urbana mais provavelmente, “villa Severi” tendo perto a residência palaciana que teria dado origem a Paçô. Em 1151 D. Men Moniz e sua mulher D. Cristina fazem trocas de terras que tinham em Sever – “hereditates alias quas habeo in Sever” – com o Mosteiro de S. João. Em 1161, a confirmação régia do couto de Argeriz (Vila Chá da Beira) marca os limites desse couto que “dividitur cum Sever atque Seixa”. Em 1173, Men Garcia e sua mulher Dórdia Aires vendem aos frades de S. João de Tarouca “hereditate nostra propria quam habemos in couto de Sever, scilicet duos casales cum omnibus terminis suis”. Vem destes tempos remotos a sua história impossível de seguir em todos os meandros; mas parece adivinhar-se que ela se desenvolve na relação de força e prestigio entre o Mosteiro de S. João de Tarouca e a população local que acabou por se organizar em concelho. É sintomático que em Setembro de 1340 D. Afonso IV, o primeiro rei que se atreveu a coarctar privilégios conventuais em defesa dos povos, proibiu o Abade cistercince de S. João de continuar a exercer juridicação cível e de crime às aldeias de Sever, Mondim, Almodafa e Vilarinho. Não é ocasional esta ligação de Sever e Mondim, concelhos que nos aparecem unidos (hoje dir-se-ia federados) durante muito tempo. Leite de Vasconcelos diz-nos que existe na Torre do Tombo, na Chancelaria de D. Fernando uma carta deste Rei a confirmar privilégios de Mondim e Sever – Memórias de Mondim da Beira. Em 1384, na sua passagem por Lamego, mandou D. João I que Penajoia, S. Martinho de Mouros, Sever e Mondim com suas divisões entrassem no termo de Lamego e “obedecessem a dita cidade e concelho” – sujeição que durou pouco tempo; mediante reclamações dos moradores de Mondim, o mesmo D. João I desanexou Mondim, Sever e outras terras em 1414. Nas cortes de Torres Vedras, em 1441, os procuradores de Lamego queixaram-se a D. Afonso V porque D. João retirara da juridicação de Lamego, Mondim e Sever. Em 14 de Outubro de 1497, informa M. Gonçalves da Costa na sua história de Lamego, D. Manuel I, em carta dirigida ao “concelho de Mondim e Sever do couto de S. João de Tarouca” confirma a sua isenção. Leite de Vasconcelos, citando uma carta de privilégio passada por D. João II a favor de Mondim e Sever, diz que a “união era favorecida pela proximidade das duas povoações”. Em 1527 qualquer coisa ensombrou a história de Sever pois que o cadastro desse ano não registaria ao seu concelho; aparece apenas o de Mondim abrangendo o seu termo Sanfins, Sever, Alvite e Granjinha e tendo como limites os concelhos de Tarouca, Várzea de Serra, Vila Cova, Touro, Leomil e Paçô. Mas já em 26 de Maio de 1528”el-rei comunicou aos homens bons de Mondim e Sever a nomeação de Gaspar Correa para escrivão dos dois concelhos, nas condições em que o fora seu pai”. De 1556, existe na Torre do Tombo um requerimento assinado pelos vereadores dos concelhos de Mondim e Sever, relacionado com o convento de S. João de Tarouca. Em 1565 e 1570 registam-se nomeações de tabeliães para os dois concelhos. Em 1605, ao confirmar a venda de um lameiro, Damião Lobo assina como tabelião público e judicial “ em esta vila e concelho de Mondim e Sever”. Em 1747 aparece-nos um tabelião de Notas das vilas de Mondim e Sever. Vemos assim, durante séculos, unidos pela colaboração e proximidade geográfica, duas terras, Mondim e Sever, que a estrada moderna e o automóvel fizeram mais distantes uma da outra! Dissemos em cima que julgamos errada a data de 1801 para a extinção do concelho de Sever, firmamo-nos na autoridade incontestável de J. Leite de Vasconcelos, Memórias de Mondim da Beira: Em 19 de Julho de 1801, a D. Abadessa e Freiras do Mosteiro de Arouca fazem um arrendamento a Manuel Ribeiro, do lugar de Vila Chã, freguesia de S. João de Tarouca, concelho e vila de Sever. Reparemos na circunstância de o povo de Vila Chã, pertencer simultaneamente ao concelho de Sever e a freguesia de S. João de Tarouca que era de outro concelho. Em 16 de Janeiro de 1816, o conde Couteiro-Mor do Reino “sendo digno de atenção o objecto de montaria aos lobos” nomeia monteiromor da vila de Sever, na comarca de Lamego, a Firmino Ribeiro, do lugar de Vila Chã, “concelho da mesma vila de Sever”. Finalmente, em 1834, - continuamos a seguir L. de Vasconcelos – o inventário dos bens do convento de S. João de Tarouca, regista: N.º21 – Umas casas em Vila Chã do Monte, concelho de Sever; servem de tulha. N.º 22 – Umas casas no lugar de Alvite, do mesmo concelho de Sever; servem de celeiro. N.º23 – Umas casas na vila de Sever; servem de celeiro. N.º24 – Uma horta na vila de Sever. N.º25 – Umas casas em Arcas, do mesmo concelho; servem de celeiro. E ainda em S. Fins (sic) concelho de Sever, foros de trigo e milho. Foi nessa altura que O Liberalismo, contra o qual nada temos a opor, serviu de pretexto para fechar conventos em beneficio de nobres decadentes ou, ainda mais, de aventureiros que se fizeram nobres; a Revolução em si válida, foi domesticada pelos administradores que centralizaram o poder e acabaram com muitas das “autarquias locais”. Sever caiu em 1835 absorvido por Leomil. Ficava de pé o Pelourinho, junto à cadeia, e alguns nomes de lugares a lembrar os velhos tempos da soberania popular. A certidão de óbito do concelho do convento dos Monges e Cister serve de testemunha de que Sever, era concelho em 1834 e que o seu termo abrangia Sever, Alvite, Arcas, Vila Chã do Monte e S. Fins. Em 1758 parece que Sever era concelho separado de Mondim e incluía Alvite a Sanfins. Parece que usou mesmo nome de “concelho de Sanfins e Sever” dada a importância de Sanfins ou S. Fins, que na idade média se chamou S. Félix e deu origem a Mondim, Sever e Paçô. Hoje, Sever é uma freguesia em fraco desenvolvimento crescendo ao longo da estrada Lamego – Moimenta. A História desafia as gentes de Sever a construir um futuro digno do seu passado. A Regionalização pode criar os espaços de liberdade para isso indispensáveis, mas não pode substituir as comunidades humanas que terão de ocupar esses espaços. Oxalá que Sever saiba definir o seu caminho e encontrar a sua identidade. TOPÓNIMOS DE SEVER “Topónimo” é uma palavra de origem grega e significa nome de terras ou de lugares; é uma das muitíssimas palavras que por via erudita, isto é, pelo uso dos sábios, que entraram na Língua Portuguesa. Os topónimos são muito úteis para o estudo da História das grandes e das pequenas terras: é além disso um tema sugestivo se pensarmos por exemplo que Pêra e Castelo significam a mesma coisa, mas Pêra muito mais antigo; E voltemos aos topónimos de Sever; Sever, como dissemos deriva de um topónimo ou seja, do nome de um homem, o que alias acontece com grande parte das nossas povoações, o daqui chamava-se “Severus” daí, “villa Severi” no genitivo equivalente a “vila Severo” na forma analítica. Há também quem ligue a outro antropónimo “ Soeiro” nome de cavaleiros que a história regista e por aqui viveram em épocas remotas. Em qualquer dos casos deve escrever-se “Sever” e não “Cever” forma que usou como processo simplista de distinguir de outras terras com o mesmo nome. Mas também há quem afirme que a origem de “Cever” é paralela à de Nagosa e Sarzedo e deriva de “cibária” nome de um produto granulado parecido com cevada. Granjinha, escrito com “j” por derivada de Granja aparece também Granginha por vir do Francês “Grange” termo introduzido em Portugal pelos monges de clister, no nosso caso os de Salzedas e de S. João de Tarouca. A palavra “Grange” vem de um ético latino “ granum” que deu também o nosso “grão” e significa exploração rural pertencente a um mosteiro. A Granjinha foi criada pelos monges de Tarouca que talvez lhe chamassem “Granjinha” para distinguir da Granja de Arcas que era maior e também lhes pertencia. Barracão é um lugar muito recente e deve o seu nome a barracão que ali existiu para serviço de passageiros após a construção da estrada real de Lamego a Trancoso; substituiu o “ Barracão velho” nome por que ainda a pouco era conhecido o lugar onde a estrada de Vila Chã da Beira encontra a estrada actual perto do alto do Sarzedo por onde passava a estrada anterior. Arcas é com certeza uma das terras mais antigas do concelho de Moimenta da Beira. Há quem pense que Arcas é uma variante popular de Orcas o que não nos parece certo; O dicionário Lello diz que “Arcas é um monte de pedras que serve de marco”. Leite de Vasconcelos por sua vez ensina-nos que Arca “é um marco especial usado pelos romanos nos campos e formado de quatro paredes, à maneira de guardas de um poço”. Algumas vezes o povo teria chamado orcas a arcas e não o contrário, mas deste contágio semântico veio posteriormente a gerar-se de facto a confusão entre Orcas e Arcas. Em Portugal há treze lugares chamados Arcas e seis chamados arca, arca não será o singular de arcas mas sim o plural neutro que em latim termina em (a) e é vulgar ainda no português como se vê no fruto e fruta ou lenho ou lenha ; a forma arca plural paralelo a arcas poderá traduzir maior antiguidade. Sendo assim Arcas nasceu no lugar que os romanos assinalaram levantando pedras para marcar uma divisão territorial. É de notar que em Arcas existe a capela de N. Senhora das Seixas, talvez vindo do latim, “saxa” que significa seixos relacionado com pedra por isso como N. Senhora da Lapa próximo de Lápis e de Lápide igualmente relacionados com a ideia de pedra. Mas “Seixa” significa também pomba branca e nesse caso parece relacionar-se com Santa Comba Osores ali martirizada sendo Comba forma reduzida de Columba, palavra latina que significa pomba. No entanto seria um pouco estranho que no lugar a toponímia conservasse a forma Arcas e a Agiológio (nomes de Santos), a forma Seixas o que se torna aceitável por os dois termos terem aparecido em épocas distantes uma da outra. Sever tem outro topónimos de interesse, como Alcadaria Albergaria, Antas, Cova do Ferro, Dominga Paz, Eira do Jogo da Bola, Eira de Pêra Galega, Pêra Longa, Mura, Orca, Orcas, Padrão, Picoto, Praça, Penedo da Camisa, Rua da Tenda, Rua da Praça e porto, tudo nomes sugestivos e estimulantes de investigação histórica e linguística. Mas há um nome que desperta interesse especial dadas as convergências que a ele conduzem. Nome Declaras ou Das Claras; Tradição um convento entre Sanfins e Sever o aparecimento fácil de tijolos tudo no mesmo lugar o que depois de ouvirmos as pessoas de Sever nos foi confirmado pelo Dr. Mendes também de Sever médico em Lamego e actual proprietário no lugar DASCLARAS. Sever teve os seus conventos, além do da Senhora Seixas diz-se ter existido um convento ou recolhimento de freiras de Santa Clara do qual ficou o Topónimo “DASCLARAS” e a Capela Margarida no sítio da Desganaia onde é fácil encontrar restos de cerâmica nomeadamente tijolos. O lugar do Picanço dizem as pessoas de Sever, foi um povo hoje desaparecido o que se confirma pela existência de vestígios de casas e o recente aparecimento de uma mó de moinho(1). Das tradições de Sever consta também que Alvite nasceu de dois casais de Sever que lá se fixaram isto explicaria o facto não muito longínquo de os mortos de Alvite virem ser sepultados em Sever; existe ainda a Cruz dos Fieis de Deus, lugar até onde Alvite acompanhava os seus defuntos que ali entregava aos cuidados dos religioso da Paróquia mãe. Nota: (1) No mesmo lugar foi encontrada parte de outra mó com medida de 40 x 20x12 cms que o Sr. Ângelo Pereira Paiva de Sever teve a gentileza de oferecer para um possível Museu de Moimenta da Beira. PÃO E AGUA Numa das visita que fizemos a Sever encontramos o forno público perto do pelourinho quente e apetitosamente aromático estava repleto de cabritos e cordeiros culinariamente bem tratados para uma festa de baptizado os alguidares de arroz – o saboroso arroz do forno da nossa cozinha rural – e as batatas guisadas são um convite convincente para os baptizados casamentos e festas. Aqui como em Arcas o forno funciona normalmente para cozer o pão amassado nas casas de lavoura, seguindo normas secularmente sedimentadas no relacionamento comunitário. "
( in livro: “Os oito concelhos de Moimenta da Beira”- A. Bento da Guia)
|